sexta-feira, 8 de março de 2013


Projeto Linhas e Liras
Coordenador: Antonio Coutinho Soares Filho
Aluna-bolsista: Maria Raimunda Feitosa Almeida

Justificativa
Numa sociedade marcada pelos ciberespaços e pelas comunicações em redes sociais, o que se vê é um volume muito grande de oportunidades de “leituras”, porém fragmentadas, urgentes e voláteis. Assim pensando, o que se nota é uma série de dificuldades das novas gerações em lidar com os múltiplos registros textuais disponíveis.
Diante disso, faz-se necessário intervir nas formas de leituras praticadas atualmente, mostrando às novas gerações a relevância do prazer estético que um texto elaborado artisticamente pode suscitar.
Vendo tal cenário, a Universidade Estadual do Maranhão, por meio do Departamento de Letras deste Centro de Estudos Superiores de Imperatriz (CESI), entende como seu papel levar aos jovens em formação o texto literário, especialmente o lírico, partindo do conceito de poema-canção praticado por relevantes compositores, procurando mostrar como os autores de poemas-canções ancoram suas obras em momentos literários diversos. O intercâmbio artístico-literário é muito mais fluido do que se pensa. Mostrar como se dá esse diálogo é fundamental para que a juventude possa conhecer os fundamentos de letras de músicas mais elaboradas artisticamente e diferenciá-las daquelas que, respondendo aos apelos do mercado, esvaziam conteúdos e propostas alienando ainda mais os que pensam que os fatos sociais se dão gratuitamente e sem interesses.
Dessa forma, o presente projeto pretende ouvir e analisar poemas-canções, fazer analogias artísticas com propostas literárias e imagens artísticas, bem como propiciar a fruição do texto literário aos jovens como forma de desautomatização do status quo, mostrando os benefícios que a arte tem para a vida do sujeito, que o gosto artístico é uma construção e não algo nato, e também denunciando o perigo a que todos estão expostos com a alienação que a indústria cultural pode propiciar.

Objetivos:
GERAL:
Desenvolver práticas de leitura literária e produção textual a partir do diálogo intertextual e intersemiótico com poemas-canções, imagens e material gráfico de encartes de cds e dvds propiciando a fruição do prazer estético suscitado pela arte.

ESPECÍFICOS:

  •  Ouvir e analisar letras de poemas-canções buscando nas margens destes pistas para discussão sobre a realidade cotidiana, bem como sobre questões subjetivas;
  •  Conhecer os fundamentos artístico-literários de poemas-canções relacionando-os com sua quase exclusão dos meios de comunicação de massa;
  •  Incentivar a descoberta científica por meio da produção de ensaios temáticos;
  •  Divulgar os saberes apreendidos por meio da publicação de material dos participantes do projeto.

AULA 01: TROVAS
A aula iniciou-se com a audição dos poemas-canções “Esse cara” (Caetano Veloso), “Ronda” (Paulo Vanzolini) e “Olhos nos olhos” (Chico Buarque), seguidos da cantiga de amigo “Mia irmana fremosa, treides comigo” (Martim Codax), com o objetivo de demonstrar aso alunos que as temáticas abordadas nas cantigas trovadorescas, em especial, as cantigas de amigo, continuam presentes em grandes clássicos da música popular brasileira.
TEXTO 1: ESSE CARA (1972) (Caetano Veloso)
Ah! Que esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Como os olhos de um bandido
Ele está na minha vida porque quer
Eu estou pra o que der e vier
Ele chega ao anoitecer
Quando vem a madrugada ele some
Ele é quem quer
Ele é o homem
Eu sou apenas uma mulher

TEXTO 2: RONDA (1951) (Paulo Vanzolini)
De noite eu rondo a cidade
A lhe procurar sem encontrar
No meio de olhares espio em todos os bares
Você não está
Volto pra casa abatida
Desencantada da vida
O sonho alegria me dá
Nele você está
Ah, se eu tivesse quem bem me quisesse
Esse alguém me diria
Desiste, esta busca é inútil
Eu não desistia
Porém, com perfeita paciência
Sigo a te buscar
Hei de encontrar
Bebendo com outras mulheres
Rolando um dadinho
Ou jogando bilhar
E neste dia então
Vai dar na primeira edição
Cena de sangue num bar
Da Avenida São João

TEXTO 3: OLHOS NOS OLHOS (1976) (Chico Buarque)
Quando você me deixou, meu bem,
Me disse pra ser feliz e passar bem.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci,
Mas depois, como era de costume, obedeci.
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando,
Me pego cantando, sem mais, nem por quê.
E tantas águas rolaram,
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você.
Quando talvez precisar de mim,
‘Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você diz.
Quero ver como suporta me ver tão feliz.
Texto 4: MIA IRMANA FREMOSA, TREIDES COMIGO (Martim Codax)

Mia irmana fremosa, treides comigo
a la igreja de Vigo, u é o mar salido,
e miraremos las ondas.

Mia irmana fremosa, treides de grado
a la igreja de Vigo, u é o mar levado,
e miraremos las ondas.

A la igreja de Vigo, u é o mar levado,
e verrá i, mia madre, o meu amado
e miraremos las ondas.

A la igreja de Vigo, u é o mar salido,
e verrá i, mia madre, o meu amigo
e miraremos las ondas

Após a reflexão e os comentários feitos a respeito das canções, foi realizada a leitura compartilhada do resumo contendo as principais marcas do trovadorismo e, para verificar o grau de aprendizado dos alunos a respeito do conteúdo desenvolvido em sala, foi passada uma atividade com três questões discursivas sobre o posicionamento do eu-lírico nas canções apresentadas.

1.    Como é o comportamento da mulher e do homem nos textos Esse cara e Ronda?
2.    Que diferença se percebe em Olhos nos olhos em relação aos outros dois textos quando se focaliza a posição feminina diante do amado?
3.    Escolha uma das canções, coloque-se na posição do eu-lírico escolhido procurando justificar suas atitudes aprovando-as ou reprovando-as justificando o porquê de sua posição.

Alguns pensamentos dos alunos envolvidos na atividade:


Francywilham Melo (3º B - vespertino)

1. As duas canções falam de mulheres que têm ciúmes de seus companheiros, falando muito mal dos homens que não lhes dão prazer.
2.  O que dá de se perceber é que nos textos “Esse cara” e “Ronda”, a mulher é muito ciumenta e não consegue viver sem o seu amado, sendo dependente dele. Já em “Olhos nos olhos” a mulher é totalmente independente e chega a se sentir melhor com a ausência do seu amado.
3.  Irei me colocar na posição do eu lírico do texto “Olhos nos olhos”, o qual se por acaso a minha amada estivesse se divertindo, esquecendo-se de mim, não me importava, partindo então para uma outra pessoa até achar a pessoa certa.


Joelson Gomes (3º B – vespertino)

1.  A mulher é ciumenta, dependente do marido e vai atrás dele onde ele estiver, com uma procura quase violenta.
2.  Esse Cara e Ronda: A mulher é ciumenta e não consegue viver longe do seu amado, sendo dependente dele. Já em Olhos nos Olhos, a mulher é independente e ela se sente melhor com a ausência do seu amado.
3.  Irei me colocar na posição do eu lírico de “Olhos nos Olhos”, pois se eu a abandonar, ou partir sem ela, que ela se sinta melhor e consiga viver independente de mim, podendo assim cada um ir para um lado viver a própria vida.

Adriano Lima Sousa (3º A vespertino)

1.  O primeiro texto fala de uma mulher que sempre procura um homem que dificilmente vai visitá-la. E o segundo também fala sobre uma mulher que fica rondando os bares da cidade à procura de seu marido.
2.  A diferença é que o marido da mulher a deixa e diz é pra ela ser feliz, mas ela diz que quando ele quiser voltar ela vai ficar sempre esperando.
3.  O texto Ronda é uma mulher que passa noites e noites andando nas ruas da cidade à procura de seu homem. Mas, ela não deveria estar correndo este risco, e sim procurando outra pessoa para ser feliz.

Jaqueline Silva  (3º A vespertino)

1.  No texto “Esse cara”, o comportamento do homem é como se ele fosse dono da mulher, a mulher age como se ela não fosse nada diante dele, como se ela fosse menos que ele. Esse sentimento de inferioridade é confirmado quando o eu-lírico diz o seguinte trecho: “sou apenas uma mulher”. No texto “Ronda”, o comportamento da mulher ocorre de forma como se ela vivesse em busca de um homem que não está nem aí pra ela, de um amor não correspondido.
2.  A mulher assume outra postura e dá a volta por cima, como se ela tivesse pisando naquela pessoa que um dia lhe fez sofrer, ela está querendo mostrar o quanto ele não faz mais falta para ela.
3.  Escolhi o texto “Esse cara”, porque ele fala de um amor não correspondido, ou seja, fala de uma mulher que tem um cara que a consome.

Thátylla (3º A – vespertino)

1.  Os dois textos trabalham com a submissão da mulher, uma mulher que corre atrás do seu homem e ele não a valoriza, ela está sempre se humilhando para tê-lo ao seu lado.
2.  No texto “Olhos nos Olhos”, a mulher está mais esperta, não tá tão submissa ao homem, está se importando mais com si mesma e não se importando somente com o homem que a largou.
3.  Na canção “Olhos nos olhos”, a mulher, ao mesmo tempo em que quer mostrar para o homem que não está mais se importando com ele, fala que a sua casa está sempre aberta para ele. Ela tanta mostrar que já o esqueceu, mas ainda sente sua falta.

Jéssica Chaves (3º A – vespertino)

1.  A mulher do texto “Esse cara” é submissa ao homem e ele é quem pode tudo e ela não pode nada, ela fica em casa esperando a hora que o homem vai aparecer. E a mulher do texto “Ronda” é uma mulher mais determinada, vai em busca do seu amor e o procura por toda a cidade.
2.  Ela dá a volta por cima, não fica submissa ao amado porque quando ele a abandona e pede pra ela ser feliz, é o que ela procura fazer.
3.  Eu concordo com ela porque ela vai em busca de sua felicidade, mas ao mesmo tempo não concordo porque ela ainda dá uma chance ao seu marido mesmo ele tendo a  abandonado.

Jane Iara Rios Silva (3º A – vespertino)

1.  A questão do vagar, é que os personagens andam sem encontrar nada, como se buscassem alguma coisa e não achassem, seus comportamentos são parecidos, tanto do homem quanto da mulher. A canção trabalha na busca dos personagens e também no desencontro.
2.  A diferença é que em “Olhos nos olhos”, a mulher é segura e determinada, no começo ela se sentia mal, mas o tempo passou e a vida continua, ela superou e no fim estava feliz. Já nos outros textos existe uma melancolia de vagar em busca de alguma coisa e não encontrar.
3.  Olhos nos olhos: Suas atitudes mostram superioridade na sua vida, o não chorar por alguém que não merece. Que um dia vai precisar de mim e eu não estarei aqui para reconfortá-lo. E me pego lembrando que existem homens melhores que você, e que me ame mais e melhor que você, minha posição é de não olhar para trás jamais.

Aline Santiago (3º A – vespertino)

1.  O homem tem essa mulher nas mãos, ele a procura quando quer e depois de se satisfazer, ele vai embora e ela aceita isso numa boa, porque ela se acha inferior a ele, quando ela diz que é apenas uma mulher. E mesmo sabendo que esse homem pode está com outras mulheres, ela vai atrás porque é dependente dele.
2.  Essa mulher não aceita ser humilhada pelo amado, ela quer estar numa posição superior e tenta fazer com que ele se sinta da mesma forma que ela se sentiu.
3.  Olhos nos olhos: a mulher não pode jamais se sujeitar a todas às vontades do homem, por mais que ela o ame muito, ela tem de deixar bem claro para ele que ela não vai aguentar tudo quieta, e que ele não vai voltar e encontrar a mesma besta de sempre. Diante das atitudes do homem, ela decide não ser mais tão submissa e deixa claro para ele que ela é uma mulher diferente de antes, uma mulher mais madura.


   Aline X. Freitas   (3º B – vespertino)


1.  Esse cara – a mulher se coloca numa posição de submissão. No pensamento dela, o homem é superior a ela, pelo simples fato de ser homem.
Ronda – a mulher é diferente, assume uma postura diferente, pois vai atrás do homem amado e o enfrenta, não sendo mais tão submissa quanto em “Esse cara”.
2.  A pessoa amada pelo eu lírico foi embora e ele a espera incansavelmente.
3.  Esse cara – esse cara tem me consumido, mesmo sofrendo eu o amo, e não o deixarei por nada no mundo!